| Resumo: |
Como o Governo Provisório chefiado por Getúlio Vargas entre 1930
e 1934 forjou a construção de uma narrativa favorável sobre os seus próprios
atos perante a imprensa carioca da época (ABREU, 2019)? No Brasil, a literatura
tem apontado a complexa relação estabelecida pela imprensa com a ditadura
militar de 1964-1985 (CAPELATO; PRADO, 1980; MOTTA, 2017), de forma similar
ao observado em estudos comparados (MOTTA; TOULHOAT, 2022). A experiência
autoritária de 1930-1934, porém, não recebeu a mesma atenção. O objetivo deste
artigo é examinar como o jornal O Radical, criado para advogar em favor da Revolução
de 1930, noticiou os momentos críticos que desafiaram a permanência
da ditadura varguista e o consequente controle do Governo Provisório sobre o
processo de reconstitucionalização do país. Analisaremos a cobertura jornalística
do periódico em conjunturas políticas críticas de 1932 a 1933, contrastando com
o publicado concomitantemente pelo Diário de Notícias, que fazia oposição à
ditadura. A crítica documental revelará como O Radical procurou retratar os interesses
puros do povo e do governo como um só ("nós", a pátria) por oposição
aos ímpetos corruptos dos adversários políticos ("eles"), para disseminar a versão
oficial do processo histórico conhecido como Revolução Constitucionalista e dos
preparativos à convocação da Constituinte. Com esta estratégia típica da retórica
populista (MUDDE; KALTWASSER, 2017), o periódico vocalizava o discurso revolucionário,
em linha com o autoritarismo eleitoral dos anos 1930 (RICCI, 2019).
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