| Resumo: |
O Partido dos Trabalhadores (PT) foi construído por sujeitos oriundos de variados setores da sociedade,
muitos desses atuantes em organizações de esquerda. Dentro dele, esses grupos políticos
acabavam muitas vezes se tornando correntes e possuíam influência em seus debates e atividades,
chegando a interferir em suas teses e planos de ação. Dentro dessa questão, nossa pesquisa centra-se
na recepção de pautas oriundas de movimentos de mulheres no PT na década de 1980, e,
para tanto, não podemos deixar de dar luz ao tratamento dado por suas correntes internas a essas
questões. Assim, devido ao tempo, nos delimitamos nas maiores tendências internas presentes no
partido durante o período estudado: A Organização Socialista Internacionalista (OSI), ou O Trabalho,
a Convergência Socialista (CS), a Democracia Socialista (DS), todas trotskistas, e a Articulação,
formada em 1983 por sujeitos de diferentes origens, em sua maioria oriundos dos meios sindicais
e das CEBs. Todas essas correntes davam apoio oficial às reivindicações femininas. Nesse sentido,
é de se observar em seus periódicos, textos escritos por militantes que discutiam o espaço dado à
mulher dentro desses grupos e mesmo questões referentes ao feminismo e ao corpo feminino. Por
outro lado, como essas correntes eram formadas por agentes com diferentes experiências e pontos
de vista, muitas vezes alguns de seus militantes conflitavam com certas pautas, sendo estas provenientes
desde o âmbito particular até problemas presentes em seus espaços de trabalho. Nesse
sentido, é de se notar também a permanência de pensamentos que delegavam a vanguarda dos
movimentos de esquerda ao homem trabalhador, omitindo a atuação de agentes não oriundos
dos meios operários. Dessa maneira, apesar desses grupos ressaltarem a importância das reivindicações
femininas, podemos notar tensões como a omissão da participação de mulheres dentro dos
movimentos sociais e das esquerdas. Também, percebemos a secundarização de pautas que não
eram consideradas de interesse dos trabalhadores, como a violência doméstica ou o rompimento
com padrões que davam a elas papel secundário dentro da sociedade, pensamento este naturalizado
também entre uma parcela de seus militantes. Ainda, é de se notar em alguns momentos, a
omissão da mobilização feminina em torno de questões levantadas por elas, como a igualdade de
salários e a implantação de creches nos espaços de trabalho, colocando essas reivindicações como
pautas mobilizadas somente pelos sindicatos ou pelo operariado, posto sob uma imagem masculinizada.
Sendo assim, nossa pesquisa toca nos conflitos existentes entre esses militantes com
variadas experiências e pontos de vista, bem como entre o posicionamento oficial desses grupos e
as práticas de sujeitos ali presentes.
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